Em São Jorge, o cristal não é souvenir. É ofício, herança e um jeito de contar o tempo da terra.
A oficina fica nos fundos de uma casa de adobe, três quadras depois do asfalto acabar. Dona Neusa trabalha de costas para a porta, com a luz da tarde entrando de lado, a única iluminação que ela aceita para escolher pedra.
O quartzo chega bruto, tirado de garimpo antigo a poucos quilômetros dali. Antes de qualquer corte, ela deixa a pedra parada por uns dias. Diz que é para conhecer: onde a luz entra, onde ela para, onde tem trinca que ninguém vê no primeiro dia.
A pedra já vem pronta. Meu trabalho é não estragar.
A prata vem depois. O engaste é sempre mínimo, quanto menos metal, mais pedra. É uma regra de estética que também é uma regra de respeito.
As peças que chegam à feira do Cápsula saem daqui. Não há catálogo, não há repetição: cada engaste responde a uma pedra só.
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